Quase três mil anos depois de ser atribuída a Homero, A Odisseia continua influenciando histórias que chegam aos cinemas, às séries de TV e aos videogames. A estreia da adaptação dirigida por Christopher Nolan reacende uma pergunta que acompanha a obra há décadas: por que um poema escrito na Grécia Antiga ainda conversa tão bem com o público de hoje?
A resposta passa menos pelos monstros da mitologia e mais pela estrutura da narrativa. Muito antes de Hollywood popularizar a chamada “jornada do herói”, Homero já colocava seu protagonista diante de uma sequência de desafios que o obrigavam a mudar a cada etapa da viagem. Não bastava vencer batalhas. Era preciso aprender com elas. As informações são do Almanaque Geek.
Esse modelo continua presente em boa parte das produções atuais. Personagens deixam suas casas, enfrentam perdas, encontram aliados, cometem erros e retornam diferentes de quando partiram. A fórmula aparece em franquias como Star Wars, O Senhor dos Anéis, Harry Potter, Duna e em jogos como God of War, The Legend of Zelda e Assassin’s Creed. Cada uma dessas obras segue um caminho próprio, mas todas compartilham elementos que já estavam presentes em A Odisseia.
A adaptação de Nolan chega justamente em um momento em que grandes estúdios voltam a investir em histórias épicas. Em vez de criar um universo inédito, o diretor decidiu revisitar uma obra que serviu de referência para inúmeras narrativas modernas. A escolha faz sentido dentro de sua filmografia, marcada por personagens que carregam o peso das próprias decisões.
Odisseu está longe da figura do herói perfeito. Ele vence porque observa, calcula e improvisa. Em vários momentos também falha. Sua vaidade prolonga a viagem, suas escolhas colocam companheiros em perigo e algumas decisões custam anos de sofrimento. Essa combinação de inteligência e fragilidade faz com que o personagem permaneça atual mesmo séculos depois de sua criação.
É justamente essa humanidade que diferencia A Odisseia de muitas aventuras contemporâneas. O foco nunca esteve apenas nos confrontos contra o Ciclope, nas sereias ou na fúria de Poseidon. Esses episódios funcionam como obstáculos externos para um conflito muito maior: o esforço de um homem para voltar à vida que deixou para trás, sabendo que ele próprio já não é o mesmo.
No cinema, essa estrutura continua funcionando porque cria um vínculo imediato com o público. Mesmo quando a história se passa em mundos fantásticos, o sentimento de tentar voltar para casa, recuperar algo perdido ou enfrentar as consequências das próprias escolhas continua sendo reconhecível.
Essa influência também aparece fora das telas. Diversos escritores utilizam a obra de Homero como ponto de partida para romances contemporâneos, enquanto desenvolvedores de jogos recorrem à mitologia grega para criar personagens, criaturas e mundos inspirados no poema. Não por acaso, Odisseu continua sendo um dos heróis mais revisitados da cultura pop.
Na adaptação de Christopher Nolan, Matt Damon (Perdido em Marte, Oppenheimer) interpreta o rei de Ítaca, enquanto Tom Holland (Homem-Aranha: Sem Volta para Casa, Uncharted) vive Telêmaco. O elenco ainda reúne Anne Hathaway (Interestelar, Os Miseráveis) como Penélope, Zendaya (Duna, Euphoria) no papel da deusa Atena, Robert Pattinson (Batman, Mickey 17) como Antínoo e Charlize Theron (Mad Max: Estrada da Fúria, Atômica) interpretando Calipso.
A produção também conta com Lupita Nyong’o (Pantera Negra, Um Lugar Silencioso: Dia Um), Jon Bernthal (O Justiceiro, O Contador 2), Benny Safdie (Joias Brutas, Oppenheimer), Bill Irwin (Interestelar, Legion) e Samantha Morton (The Walking Dead, Ela).
Independentemente da recepção do filme, a nova adaptação reforça um fato curioso: poucas histórias atravessaram tantos séculos sem perder espaço no imaginário popular. Enquanto novas franquias surgem todos os anos, A Odisseia continua encontrando maneiras de dialogar com diferentes gerações, provando que algumas narrativas conseguem sobreviver ao tempo justamente porque falam de experiências que continuam fazendo parte da vida humana.
